Entre ciência e administração
Para José Goldemberg, a reitoria da Universidade de São Paulo pode ser considerada a posição mais difícil do país. A forte concorrência de setores tradicionais como a Escola de Medicina e a pressão de alunos, funcionários e docentes foram fatores decisivos para sua eleição em 1986. Indicado pela Associação de Docentes e por meio do voto popular, o físico saiu vitorioso entre estudantes e docentes e foi selecionado para compor a concorrida lista sêxtupla para reitores da USP. Indicado como primeira opção pelo conservador Conselho Universitário, foi escolhido pelo governador Franco Montoro e iniciou sua gestão em janeiro de 1987.
Considerado pelos estudantes como o primeiro reitor progressista da universidade, promoveu mudanças significativas na estrutura universitária. Como primeiro decreto revogou a medida do presidente militar Ernesto Geisel, retomando a lista tríplice para reitores, ação marcante contra o autoritarismo. O físico também ficou conhecido pelo polêmico episódio dos improdutivos, em que realizou um levantamento acerca da produção acadêmica da universidade. Goldemberg imputa a melhoria na produção acadêmica, em parte fomentada pelo episódio, como ponto alto de sua gestão.
O decreto de autonomia orçamentária para as universidades, assinado em 1988 pelo então governador de São Paulo Orestes Quércia, foi pensado por Goldemberg ainda no início da gestão. Ainda em vigor, representa um importante avanço na administração das universidades estaduais e foi fundamental para a valorização da pesquisa científica de vanguarda.
Goldemberg também foi o responsável pela democratização do Estatuto da universidade. Entre as medidas, aumentou em 20% a participação dos estudantes no Conselho Universitário, instituiu quatro pró-reitorias e criou o Instituto de Estudos Avançados (IEA), órgão de integração destinado à pesquisa e discussão das questões fundamentais da ciência e da cultura.
Governador Franco Montoro e José Goldemberg- Cerimônia de posse da reitoria
Entre 1979 e 1982, José Goldemberg foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O físico foi sucessor do colega de departamento, Oscar Sala, presidente da instituição durante o episódio de invasão pela polícia militar da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que em 1977 sediava a 29ª reunião da SBPC.
Como defensora da ciência e da liberdade de pensamento, a entidade civil foi alvo de perseguição do regime militar e uma importante aliada no processo de transição democrática. Durante sua gestão, a instituição não sofreu grande censura e até mesmo foi reconhecida pelo presidente João Figueiredo, o último do regime militar do Brasil, em encontro com Goldemberg realizado em Brasília. Na época, a SBPC era um dos poucos lugares onde a sociedade civill podia se manifestar, e o encontro teve um caráter simbólico no processo gradual de abertura democrática.
Presidente João Figueiredo e José Goldemberg- Arquivo Nacional
A presidência da Fundação de Amparo à Ciência do Estado de São Paulo (FAPESP), entre 2015 e 2018, foi o último cargo público ocupado por José Goldemberg.
À frente da gestão da fundação, o professor criou linhas de financiamento de ‘startups’ e fomentou a conexão entre a pesquisa científica e a indústria nacional. Para o físico, o investimento em ciência e tecnologia deveria gerar retorno para a transformação do conhecimento em produtos, em uma conexão dos pesquisadores às necessidades da indústria.
Sua atuação foi reconhecida pelo reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti (2022-2026), que é membro do Conselho Superior da Fapesp, como extremamente produtiva e um período importante para a instituição, considerada uma das principais agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica do país.